Se um dia te fizesse um poema
Se o fizesse a ti,
devia saber a chá de menta,
a sol algarvio,
a tarte de amêndoa.
Devia saber a mulher,
esse gosto secreto
esse aroma discreto
que do mais fundo de ti
inebria o ar.
Teria de contigo me deitar na palha,
misturá-la no teu corpo,
nos teus calções curtos
diluir-me na tua pele.
E no beijo que nunca provei
ser pastor feito rei
aprender nos teus olhos
as ondas, as distâncias, os negros
as palavras amigas,
as palavras não proferidas,
nos lábios que beijam segredos.
E depois do poema feito,
passar-to discretamente
para a mão aberta,
ao teu lado pendente.
Depois encaracolar-te os dedos
e sem que ninguém notasse
deixar o meu cheiro em ti.
E num beijo em que te vejo,
meus olhos nos teus perdidos,
deixar que dois corações
num mesmo peito
dancem unidos!
quarta-feira, setembro 22, 2010
Deitada na Palha
domingo, setembro 19, 2010
Lúbrica - Camilo Pessanha

Lúbrica
Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,
E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;
Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...
Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;
Como, da Ásia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os músculos hercúleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.
Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.
Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostrasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;
Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido,
Como os ébrios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo predilecto
No ambiente espalhava pouco antes...
Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da inocência em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;
Que há de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçá-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;
Quero admirá-la, então, tranquilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruído os afugente;
Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...
Mas não posso contar: nada há que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,
Passeando sozinha na alameda...
Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
terça-feira, setembro 07, 2010
Sentir

Foto de Oliver Zahm, aqui.
Sabes as palavras?
Se fechas os olhos e as deixas fluir em ti,
despertam-te os sentidos,
estou a mentir,
adormecem-te os sentidos,
despertam-te o sentir.
Sabes as palavras,
as nossas palavras, não têm um sabor
fixo, nem real nem inventado,
são palavras selvagens
que perturbam o silêncio rasgado
dentro do coração.
Sabes as palavras,
são os meus olhos, que sem ver te conhecem,
são sons por produzir que em silêncio se desvanecem,
as nossas palavras têm sonhos agarrados,
tem pedaços de tinta com que pintamos os nossos quadros
que penduramos nas paredes e ninguém vê!
As nossas palavras são dedos,
suaves compridos, ágeis, com que despimos
a roupa que trazemos vestida
E mostramos um ao outro
os nossos doces segredos.
Como crianças brincamos ao sol doirado,
e em jogo adultos em quartos fechados,
em que o aroma roxo das flores da Malva,
se afoga na saliva.
Encostamos as mãos pelas palma,
e dançamos ao som da nossa música,
que compomos em cada compasso,
e finda a sinfonia,
pausa , silêncio e magia,
Entra o mar em acalmia e adormeço eu
no teu abraço.
segunda-feira, agosto 16, 2010
Verão oculto

No calor que te atormenta o corpo,
que te turva o raciocínio,
que te inquieta a alma.
Quero ser brisa no teu cabelo,
frescura na tua pele,
Que te serena e acalma.
Quero soprar no teu vestido,
ondulá-lo nos teus seios,
quero levantar-te a orla da saia,
sem pudores e sem receios.
Quero ser beijo suave,
numa boca por beijar,
quero-te sentir, quero-te provar.
E no momento certo,
deste sonho assim sonhado.
Não quero ser desperto,
Não quero ser acordado.
Quero continuar a ser brisa em ti,
quero prolongar,
todo o belo que senti!
Enquanto abrasa o calor
e o Verão não chega ao fim,
és mulher do meu desejo,
és doce loucura para mim!
quinta-feira, agosto 12, 2010
Das tuas mãos nascem árvores

Das tuas mãos nascem árvores, flores e frutos.
Plantas sonhos nos canteiros.
És montes, vales e planícies,
és fonte de água fresca,
és leito de ribeiros.
E mais que as palavras que dizes,
que os sonhos que transformas,
é a vontade que te guia
teu desejo não respeita normas.
Nos teus olhos o horizonte parece nunca ter fim,
Guarda dentro do teu peito um lugar só para mim.
Monta comigo um teatro,
Com cenários de fantasia,
Vem trazer ao meu mundo a tua dose de magia.
Vem na brisa do vento,
De braços abertos sem medo.
Ser mulher, ser sentimento,
Dar de beber em segredo!
terça-feira, janeiro 05, 2010
Sabes-me
Sabes-me a mistérios por desvendar,
a um chá no deserto,
ao aroma incerto do café...
Sabes-me a azul, a veludo,
sabes-me a paredes,
a candeeiros de pé.
Armários, peles de coelho,
texturas suaves.
Sabes a planícies verdes,
Sabes-me... sabes?
Sabes-me a proibido,
exótico, clandestido,
sabes-me a ciganas adivinhas,
a brincadeiras do destino.
Sabes-ma a sal a saliva,
a lábios de mel,
sabes-me a beijo a desejo,
sabes-me ao toque da pele,
sabes-me a loucura
a medo,
Sabes-me a furiosa ternura,
sabes-me a sangue
a virginal candura,
tens o aroma do segredo.
Sabes-me a praia a sol,
a florestas, a marfim,
Sabes-me a ti,
sabes-me a mim.
a um chá no deserto,
ao aroma incerto do café...
Sabes-me a azul, a veludo,
sabes-me a paredes,
a candeeiros de pé.
Armários, peles de coelho,
texturas suaves.
Sabes a planícies verdes,
Sabes-me... sabes?
Sabes-me a proibido,
exótico, clandestido,
sabes-me a ciganas adivinhas,
a brincadeiras do destino.
Sabes-ma a sal a saliva,
a lábios de mel,
sabes-me a beijo a desejo,
sabes-me ao toque da pele,
sabes-me a loucura
a medo,
Sabes-me a furiosa ternura,
sabes-me a sangue
a virginal candura,
tens o aroma do segredo.
Sabes-me a praia a sol,
a florestas, a marfim,
Sabes-me a ti,
sabes-me a mim.
quarta-feira, novembro 11, 2009
Esta noite, quando te deitares

Esta noite, quando te deitares
Deixa a janela aberta,
Para que o vento norte me transporte
E me faça entrar.
Esta noite, quando te deitares
Põe uma gota de perfume no umbigo,
E deixa que o sono te embale,
E diz baixinho o meu nome.
Esta noite, quando te deitares,
Deixa que o lençol revele as tuas coxas,
Pousa a mão no teu seio, sem receio
Enche a atmosfera de ti.
Esta noite, quando te deitares,
Se sentires que te desejo.
Que em teus lábios deposito um beijo
E que me deito mesmo a teu lado…
Não penses, guia-te só pelo que sentes,
Prende-me a língua entre os dentes,
Afaga-me os cabelos com os dedos
Constrói comigo novos segredos,
Entrelaça-te em mim,
E pertinho do fim acorda,
Deixa-me enamorado.
Porque o desejo morre,
Quando é saciado.
E tu és fonte eterna,
Doce magia a crescer,
E teu olhar é sede,
E o teu corpo é bom de beber.
Namoro é caça, é jogo,
Não tenhas pena de mim.
Sofro pelo que não tenho,
Morria se chegasse ao fim!
Alexandre
quarta-feira, julho 08, 2009
Perfumes secretos

Sou menino curioso espreitando os teus mistérios
Sou desvendador de segredos
Tenho gostos, tenho desejos e tenho medos.
Sou num instante insasiável amante
e no no instante seguinte desvaneço-me no ar.
Sou o cheiro das tuas coxas,
da saliva nos teus lábios
da nossa pele.
Colecciono perfumes secretos,
movimentos incertos,
e bebo no teu favo o mel.
terça-feira, junho 16, 2009
No teu corpo
Sou cartapácio de poemas por escrever
Nós artríticos e preguiçosos dos meus dedos
Sou segredos inconfessáveis de eunuco
O nada todo que preenche a vida
Sou electrizante confusão no vácuo
Massa que as leis já não dominam
Bosão artefacto que ensinam os doutores
E vivo ardendo sem oxigénio
Sem oficio, sem negócio, sem génio.
E provavelmente estou morto e não sei!
Sou as contas por fazer e a rotina
Palhaço jornaleiro que se vende
À hora que o minuto é diminuto
E não se dividem os cêntimos no meu valor.
Bebo nas fendas das rochas o mel supremo
Há néctar nas flores do meu desejo
Tenho lábios tenho dedos tenho sexo
Sobrelevo-me a mim
Divino verso de palavras sem nexo
Que te abrem como um beijo.
E se vivo todos os dias morto,
Vivo quando morro no teu corpo.
Nós artríticos e preguiçosos dos meus dedos
Sou segredos inconfessáveis de eunuco
O nada todo que preenche a vida
Sou electrizante confusão no vácuo
Massa que as leis já não dominam
Bosão artefacto que ensinam os doutores
E vivo ardendo sem oxigénio
Sem oficio, sem negócio, sem génio.
E provavelmente estou morto e não sei!
Sou as contas por fazer e a rotina
Palhaço jornaleiro que se vende
À hora que o minuto é diminuto
E não se dividem os cêntimos no meu valor.
Bebo nas fendas das rochas o mel supremo
Há néctar nas flores do meu desejo
Tenho lábios tenho dedos tenho sexo
Sobrelevo-me a mim
Divino verso de palavras sem nexo
Que te abrem como um beijo.
E se vivo todos os dias morto,
Vivo quando morro no teu corpo.
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